Ciberespaço, educação e a lei 10.639/03

 

Poderia começar escrevendo sobre o quão importante se tornou as novas tecnologias e o ciberespaço para mediar às relações sociais. Mas trago as expertises do geógrafo Milton Santos a respeito da globalização.

Para SANTOS (2006) a globalização possui três perspectivas: a fábula, a perversidade e a possibilidade. A globalização como fábula traz o mundo tal como nos fazem crer. Um exemplo claro disso são as novas tecnologias, ou melhor, a aldeia global como o autor denomina.

Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas.  (SANTOS, 2006, p. 9).

É importante notar a passagem do trecho que diz “ a partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar […]”. Diante desta sociedade informacional que nos faz crer que todas e todos estão conectadas (os) e interagindo no ciberespaço, esquecemos dos 42% dos brasileiros e brasileiras que não têm acesso à esta aldeia global, à internet. Este dado pode ser conferido no relatório The State of Broadband 2015 divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A globalização como perversidade está nesta desigualdade. O desemprego e o baixo salário são alguns dos fatores que afastam e impendem mais de 84 milhões dos brasileiros de estarem no ciberespaço.

Pensando na perspectiva da possibilidade e diante do que foi exposto até aqui, destacarei a tecnologia VozMob. A VozMob é uma ferramenta utilizada por imigrantes ou trabalhadores de baixa renda em Los Angeles (EUA) para criar narrativas sobre suas comunidades e realidades através de telefone móveis, desenvolvida pela IDEPSCA (Instituto de Educação Popular da Califórnia). A partir desta ideia o pesquisador Sasha Costanza –Shock do Center for Civic Media do Massachusetts Institute of Technology , criou o sistema Vojo , uma mistura de “voz” e “ojo” (olho em português).

O Vojo é desenvolvido em código aberto e permite que qualquer pessoa sem acesso à internet, mas que possua acesso a um telefone fixo ou celular simples envie suas narrativas para uma plataforma digital. O custo é de uma ligação local e cada região com cobertura Vojo tem seu próprio número fixo local.

Em 2013 Instituto Mídia Étnica, Salvador (BA), trouxe esta tecnologia para o Brasil. Neste período realizou ações na Ilha de Maré, subúrbio de Salvador  e hoje conta com apoio de outros coletivos e organizações para popularizar esta tecnologia de baixo custo e que democratiza a comunicação.

Para contemplar os 58% da população brasileira que tem acesso à internet, outras ferramentas de denúncia e aprendizagem foi criada.  O instrumento de denúncia é o Mapa Lagbaye Lyika do Iorubá “revolução geográfica”, é um projeto que tem como objetivo acumular materiais produzidos por agentes das comunidades, para que estes agentes tomem conhecimento das problemáticas sociais, sobretudo das formas de violências e genocídio do povo negro. Este Mapa serve como instrumento de reação e fortalecimento dos povos e comunidades tradicionais e de matriz africana.

No Mapa Lagbaye Lyika as pessoas podem denunciar casos de violações de direitos, localizando onde foi a violação e contactando outras pessoas, servindo como manifestações de auto cartografia. Assim, é possível garantir transparência e controle dos atos dos aparelhos do Estado, principalmente a Policia Militar.

A respeito da ferramenta de aprendizagem, podemos destacar a rede de aprendizagem colaborativa Ubuntu. Mas antes de explicar seus objetivos, acredito ser necessário contextualizar o modelo de educação tradicional e como a Ubuntu supera este modelo.

Por que somos obrigadas (os) a ir à escola desde criança?

Esta pergunta nem todas as pessoas sabem responder, até porque nem na escola iremos saber a resposta.

Em 1717 o rei Frederico Guilherme I da Prússia, também conhecido como Rei Soldado, ordenou que todas as crianças frequentassem as escolas estatais. ROTHBARD (2013) descreve o rei Frederico Guilherme I da seguinte forma:

Ele acreditava fervorosamente no despotismo patriarcal e na virtude do absolutismo monárquico. Uma de suas primeiras medidas foi aumentar o exército prussiano, fundado numa disciplina de ferro que se tornou famosa por toda Europa. Na administração civil, o rei Frederico Guilherme I forjou a máquina centralizadora do serviço público, que se tornou a famosa burocracia autocrática prussiana. No mundo comercial, o  rei impôs restrições, regulações e subsídios no comércio e negócios (ROTHBARD, 2013, p.34)

Diante disso,  nota-se que a educação obrigatória na Prússia foi uma forma encontrada pelo rei para garantir o despotismo, ascensão do Estado prussiano, levar instrução religiosa aos estudantes e impor uniformidade da língua Em 1810, já sobre o reinado de Frederico Guilherme III, foi decretado o exame estatal e certificação para as (os) educadoras (es).

Salas de aula, aulas expositivas e cansativas, intervalos curtos, sirene, fragmentação de informações através das matérias, escola como prisão. Esse modelo foi disseminado e copiado em várias partes do mundo.

No Brasil a obrigatoriedade e gratuidade da educação, podem ser vista no artigo 130 da Constituição de 1937, Estado Novo, o qual diz que “o ensino primário é obrigatório e gratuito”. Até 1971, período da Ditadura Militar, o ensino obrigatório e gratuito era educação primária, com duração de quatro anos. Após 1971 passou a ser de oito anos, dos 7 aos 14 anos.

O modelo da educação obrigatória e industrial é o que seguimos até hoje. Uma educação bancária onde as (os) educadoras (es) impõe seu conhecimento em sala de aula e as (os) estudantes recebem os conteúdos de forma passiva.

Em 2014 a Pearson, uma das maiores empresas de educação e editoria de livros do mundo, publicou o estudo The Learning Curve, com dados sobre educação e métodos de ensino no mundo inteiro. O estudo trouxe algumas habilidades necessárias para o futuro, estre elas: liderança, alfabetização digital, comunicação, inteligência emocional empreendedorismo, cidadania global, habilidade para resolução de problemas e trabalho em equipe. Será que o modelo educacional de hoje conseguirá dar conta disso?

No dia 10 dezembro de 2015 , dia Internacional dos Direitos Humanos, o coletivo Desabafo Social lançou a rede de aprendizagem colaborativa Ubuntu, uma rede social criada para conectar pessoas, ocupar e criar espaços, estabelecer uma rede de relacionamento com foco nos direitos humanos, sobretudo na participação social e política.

A rede social Ubuntu foi pensada em três pilares: desconstrução, construção e colaboração. Assim como a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, o Desabafo Social acredita que a desconstrução serve para não corrermos o perigo da história única. Para não vivermos no mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula, como diria  SANTOS (2006), precisamos construir novas narrativas, entender os contextos sem reduzir a um só olhar.

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Diante disso a Ubuntu busca ampliar as discussões sobre temas relacionados aos direitos humanos através de Espaços Colaborativos, com pessoas de diferentes lugares e experiências, permitindo que estas pessoas ocupem e/ou criem espaços, se conectem através de videochat e possam criar uma ação coletiva simultaneamente através da Wiki. Como FREIRE (1996) diz em seu livro Pedagogia da Autonomia:

Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. (FREIRE, 1996, p. 21).

Os usuários da Ubuntu conseguem despertar a curiosidade e estimular o gosto pela aprendizagem, por terem possibilidades e autonomia para isso.

Esta rede tem mais 1000 usuários, em sua maioria jovens, 95% são negras (os) e 82% mulheres. O nome Ubuntu deve ter atraído este público para a rede social, afinal, Ubuntu é uma expressão idiomática da língua Zulu que traduzida para o português significa “Eu sou porque nós somos”. Além disso, as pessoas têm conhecido a Ubuntu através de coletivos negros, feministas e de educação.

Em um mês de existência, as pessoas da rede juntaram-se e criaram conteúdos voltados para comunicação, gênero e relações raciais, que podem ser conferidos no blog do Desabafo Social. Uma de São Paulo, outro de Pernambuco, uma da Bahia, outro de Rondônia. Para as crianças está servindo como atividade extracurricular sobre história e cultura afro-brasileira.

 A escola, tal como conhecemos hoje, não coloca em prática a Lei 10.639/03. Mas quando a criança e o adolescente acessam a Ubuntu, se deparam com um mar de informações e interações sobre a história afro-brasileira, levando-as à curiosidade e ao desejo de aprender mais sobre o assunto.

Este é o caso de Fael Carvalho que passou a utilizar a rede social Ubuntu após sua mãe indicar. Hoje mãe e filho interagem na rede com outras pessoas e discutem sobre relações raciais.

Entre as principais dificuldades para a implementação da lei 10.639/03, que estabelece as diretrizes e as bases da educação nacional para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-brasileira”, estão o desconhecimentos das educadoras e educadores para abordar o tema. Isto ocorre devido à inexistência de temáticas sobre esses assuntos nos currículos dos cursos de licenciatura.

A Ubuntu permite que as (os) estudantes encontrem pessoas que possam colaborar com seus aprendizados. Ou seja, é possível encontrar educadoras (es) de matemática que, através do chat ou videochat, forneça explicações sobre determinado assunto, interligando com os dados referentes a população negra. Ou encontrar uma professora de Biologia que explique genética levando em consideração doenças que afetam principalmente as pessoas negras, a exemplo de doenças falciformes. Desta forma, esses encontros por mediação tecnológica só são possíveis porque os usuários da Ubuntu encontram na plataforma possibilidades que afloram a curiosidade e despertam naturalmente o gosto pela aprendizagem.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa as diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º graus, e dá outras providências. Diário Oficial da União, 12 de ago. 1971.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 1.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra 1974

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

ROTHBARD, Murray N. Educação: Livre e Obrigatória. Tradução de Filipe Rangel Celeti. São Paulo: Instituto Ludwing von Mises Brasil, 2013

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2006

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